Violência contra mulheres negras, indígenas e LBT: quando gênero se cruza com desigualdade
Quando falamos sobre violência contra as mulheres, é importante lembrar que ela não atinge todas da mesma forma[cite: 1]. Algumas mulheres estão mais expostas à violência, ao abandono do Estado e à falta de proteção porque, além do machismo, também enfrentam racismo, preconceito contra sua identidade de gênero ou orientação sexual, pobreza, exclusão territorial e invisibilidade social[cite: 1]. É por isso que esse debate precisa olhar para os cruzamentos entre diferentes desigualdades[cite: 1]. Esse olhar é chamado de interseccionalidade: entender que gênero, raça, classe, território e identidade não atuam separadamente, mas juntos, aprofundando violências e barreiras[cite: 1].
Na prática, isso significa que não basta dizer que “as mulheres sofrem violência”[cite: 1]. É preciso perguntar: quais mulheres? em quais condições? com que acesso à proteção? Uma mulher negra da periferia, uma mulher indígena em seu território, uma mulher lésbica, bissexual ou trans podem viver formas muito diferentes, e muitas vezes mais duras, de violência[cite: 1]. Quando esses recortes não aparecem, a realidade fica incompleta, e as políticas públicas deixam de alcançar justamente quem mais precisa[cite: 1].
No caso das mulheres negras, os dados mostram como racismo e violência de gênero caminham juntos[cite: 1]. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, 63,6% das vítimas de feminicídio no Brasil eram negras[cite: 1]. Já uma nota técnica publicada em março de 2026 mostrou que, entre 2021 e 2024, 62,6% das vítimas de feminicídio eram mulheres negras, enquanto mulheres indígenas e amarelas aparecem em percentuais muito baixos nos registros, o que também acende um alerta sobre subnotificação e apagamento[cite: 1]. Esses números revelam que a violência não está separada da desigualdade racial: ela atinge com mais força quem já vive em contextos históricos de exclusão[cite: 1].

Falar de mulheres indígenas também exige atenção especial[cite: 1]. A violência, nesse caso, muitas vezes se relaciona não apenas ao gênero, mas também ao território, à invasão de terras, à precariedade no acesso à saúde, à ausência do Estado e ao racismo contra povos originários[cite: 1]. Em 2025, o Conselho Nacional de Direitos Humanos divulgou que os registros de violência contra mulheres indígenas aumentaram 258% entre 2014 e 2023, com destaque para o crescimento da violência sexual[cite: 1]. O mesmo documento afirma que 79% das vítimas eram menores de idade, mostrando um cenário ainda mais grave[cite: 1]. Quando a violência se mistura com disputa por território e abandono social, ela se torna ainda mais cruel[cite: 1].
Quando olhamos para mulheres LBT e trans, outro problema aparece com força: a invisibilização estatística[cite: 1]. Muitas violências não são registradas com o recorte correto de orientação sexual ou identidade de gênero, o que dificulta enregar a dimensão real do problema[cite: 1]. Mesmo assim, os levantamentos existentes mostram uma situação grave[cite: 1]. O dossiê da ANTRA sobre 2024 reforça a permanência do Brasil como um país extremamente violento para pessoas trans e chama atenção para a violência de gênero sofrida por mulheres trans e travestis[cite: 1]. O mesmo debate também tem avançado em relação às mulheres lésbicas e bissexuais: em 2025, o Ministério das Mulheres divulgou o LesboCenso, pesquisa que mapeia desafios vividos por lésbicas no Brasil, inclusive nas áreas de violência, saúde e educação[cite: 1].

Falar sobre interseccionalidade, então, não é usar uma palavra difícil[cite: 1]. É reconhecer uma verdade simples: a violência cresce onde a desigualdade já machuca[cite: 1]. E, se queremos enfrentá-la de verdade, precisamos olhar com mais atenção para aquelas que historicamente foram menos ouvidas, menos protegidas e menos contadas[cite: 1]. Combater a violência contra as mulheres também exige combater o racismo, a LGBTfobia, a exclusão territorial e o apagamento de tantas vidas[cite: 1]. Só assim será possível construir políticas públicas que realmente protejam todas as mulheres, em sua diversidade[cite: 1].
Não se cale, denuncie.
