Violência contra mulheres negras, indígenas e LBT: quando gênero se cruza com desigualdade

Quando falamos sobre violência contra as mulheres, é importante lembrar que ela não atinge todas da mesma forma. Algumas mulheres estão mais expostas à violência, ao abandono do Estado e à falta de proteção porque, além do machismo, também enfrentam racismo, preconceito contra sua identidade de gênero ou orientação sexual, pobreza, exclusão territorial e invisibilidade social. É por isso que esse debate precisa olhar para os cruzamentos entre diferentes desigualdades. Esse olhar é chamado de interseccionalidade: entender que gênero, raça, classe, território e identidade não atuam separadamente, mas juntos, aprofundando violências e barreiras.

Na prática, isso significa que não basta dizer que “as mulheres sofrem violência”. É preciso perguntar: quais mulheres? em quais condições? com que acesso à proteção? Uma mulher negra da periferia, uma mulher indígena em seu território, uma mulher lésbica, bissexual ou trans podem viver formas muito diferentes ,e muitas vezes mais duras, de violência. Quando esses recortes não aparecem, a realidade fica incompleta, e as políticas públicas deixam de alcançar justamente quem mais precisa.

No caso das mulheres negras, os dados mostram como racismo e violência de gênero caminham juntos. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, 63,6% das vítimas de feminicídio no Brasil eram negras. Já uma nota técnica publicada em março de 2026 mostrou que, entre 2021 e 2024, 62,6% das vítimas de feminicídio eram mulheres negras, enquanto mulheres indígenas e amarelas aparecem em percentuais muito baixos nos registros, o que também acende um alerta sobre subnotificação e apagamento. Esses números revelam que a violência não está separada da desigualdade racial: ela atinge com mais força quem já vive em contextos históricos de exclusão.

Falar de mulheres indígenas também exige atenção especial. A violência, nesse caso, muitas vezes se relaciona não apenas ao gênero, mas também ao território, à invasão de terras, à precariedade no acesso à saúde, à ausência do Estado e ao racismo contra povos originários. Em 2025, o Conselho Nacional de Direitos Humanos divulgou que os registros de violência contra mulheres indígenas aumentaram 258% entre 2014 e 2023, com destaque para o crescimento da violência sexual. O mesmo documento afirma que 79% das vítimas eram menores de idade, mostrando um cenário ainda mais grave. Quando a violência se mistura com disputa por território e abandono social, ela se torna ainda mais cruel.

Quando olhamos para mulheres LBT e trans, outro problema aparece com força: a invisibilização estatística. Muitas violências não são registradas com o recorte correto de orientação sexual ou identidade de gênero, o que dificulta enxergar a dimensão real do problema. Mesmo assim, os levantamentos existentes mostram uma situação grave. O dossiê da ANTRA sobre 2024 reforça a permanência do Brasil como um país extremamente violento para pessoas trans e chama atenção para a violência de gênero sofrida por mulheres trans e travestis. O mesmo debate também tem avançado em relação às mulheres lésbicas e bissexuais: em 2025, o Ministério das Mulheres divulgou o LesboCenso, pesquisa que mapeia desafios vividos por lésbicas no Brasil, inclusive nas áreas de violência, saúde e educação.

 

Falar sobre interseccionalidade, então, não é usar uma palavra difícil. É reconhecer uma verdade simples: a violência cresce onde a desigualdade já machuca. E, se queremos enfrentá-la de verdade, precisamos olhar com mais atenção para aquelas que historicamente foram menos ouvidas, menos protegidas e menos contadas. Combater a violência contra as mulheres também exige combater o racismo, a LGBTfobia, a exclusão territorial e o apagamento de tantas vidas. Só assim será possível construir políticas públicas que realmente protejam todas as mulheres, em sua diversidade.

Não se cale, denuncie.

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