Antirracismo: Um Compromisso Coletivo e Inadiável

A formação do Brasil ocorreu dentro de uma lógica política, científica e econômica sustentada por estruturas de dominação, exploração e devastação colonial. Desde o início, o país foi moldado por uma cultura imperialista, racista, eugenista e higienista. Considerando os 521 anos desde a invasão portuguesa, dos quais 388 foram marcados pela escravidão, até sua abolição formal em 1888 e outros 100 até a promulgação da Constituição Federal de 1988, que finalmente reconheceu os direitos das maiorias historicamente minorizadas, torna-se evidente que apenas 33 anos se passaram sob um marco legal que afirma, ainda que tardiamente, a diversidade racial e uma concepção democrática de cidadania. No entanto, para muitas pessoas, é mais fácil sustentar a crença equivocada de que pessoas negras, indígenas, mulheres, gays, lésbicas e populações pobres são inferiores, do que reconhecer que as violências que as atravessam são resultado de um longo e brutal processo colonial de exploração (ALVES, et al., 2022).

Desse modo, a estrutura racista que atravessa a sociedade brasileira não é acidental: ela é fruto de séculos de exploração e de um projeto historicamente planejado para consolidar relações de dominação e subalternidade envolvendo pessoas negras (pretas e pardas), indígenas e comunidades quilombolas. Seus efeitos permanecem visíveis no cotidiano, como destaca a cartilha antirracista (2023), elaborada por alunos, em sua maioria voluntários, sob coordenação do Projeto Letramento Racial como forma de Enfrentamento ao Racismo, vinculado ao Instituto de Ciências Jurídicas da Universidade Federal do Pará. Segundo o material, o racismo se manifesta quando uma pessoa negra, ou um grupo de pessoas negras, é submetido a constrangimentos, discriminações ou violências, físicas ou verbais, motivadas exclusivamente por seu pertencimento racial.

Diante desse cenário histórico brasileiro de opressão, que segue negando direitos, todos nós temos o dever de sermos antirracistas. Djamila Ribeiro, filósofa, escritora e ativista feminista brasileira, enfatiza que ser antirracista exige ação concreta; não se trata de um adjetivo associado ao próprio nome, mas de um verbo, um compromisso cotidiano. Não basta apenas “não ser racista”: é necessário agir de forma sistemática contra o racismo — questionando piadas, silêncios, estruturas e escolhas que o sustentam. Esse compromisso envolve vigilância constante sobre as próprias atitudes e disposição para reconhecer privilégios. Inclui, também, compreender que a linguagem carrega valores sociais e, por isso, deve ser usada de maneira crítica, abandonando expressões racistas como “ela é negra, mas é bonita”. Ser antirracista implica pesquisar, estudar produções de intelectuais negros e promover diálogos dentro de casa, com a família e com as crianças. Significa, ainda, apresentar às crianças obras literárias com personagens negros que rompam com estereótipos e assegurar que as escolas cumpram a Lei nº 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino da história e da cultura africana e afro-brasileira (Ribeiro, 2019).

Nesse contexto, o antirracismo configura-se como a oposição ativa ao racismo, ao preconceito, à discriminação racial e às ideologias que os sustentam. Trata-se de uma ferramenta fundamental para a construção da justiça racial e para o fortalecimento de uma sociedade verdadeiramente democrática, justa e diversa (Cartilha Antirracista, 2023). Uma educação antirracista, conforme defende Bárbara Carine em Como Ser um Educador Antirracista, não se limita a promover inclusão formal. Ela propõe uma escola “implosiva”, que questiona e desmantela as estruturas que historicamente sustentam desigualdades raciais. Mais do que inserir “o diferente” no modelo já dado, trata-se de reconstruir a escola de forma coletiva, repensando currículos, práticas pedagógicas, relações de poder e modos de produzir conhecimento, para que a instituição se torne, de fato, espaço de justiça, equidade e transformação social.

O rapper Emicida diz “A pé, trilha em brasa e barranco, que pena. Se até pra sonhar tem entrave. A felicidade do branco é plena. A felicidade do preto é quase”, descrevendo genuinamente a profundidade com que o sistema racista no Brasil dilacera as minorias.

Fotografia do rapper Emicida

Por fim, é somente por meio de uma educação antirracista, compromisso político e responsabilidade de toda a sociedade, que será possível enfrentar efetivamente o racismo no Brasil. Para isso, é fundamental compreender o funcionamento de suas estruturas, de modo a agir de forma consciente e constante na construção de práticas verdadeiramente antirracistas.

Referências

ALVES, Adeir Ferreira; MACEDO, Aldenora Conceição; CARDOSO, Elna Dias. “É Preciso Ser Antirracista”. Caderno de apoio para práticas pedagógicas de enfrentamento e combate ao racismo na escola: Implementando a Lei 10.639 de 2003. 128p. 2022. ISBN 978-65-999227-0-1

Cartilha antirracista. Projeto letramento racial: como forma de combate ao racismo / Universidade Federal do Pará, Instituto de Ciências Jurídicas, Projeto Letramento Racial. – Belém: ICJ/UFPA, 58p. 2023.

PINHEIRO, Bárbara Carine Soares. Como ser um educador antirracista. São Paulo: Planeta do Brasil,160p. 2023. ISBN: 09788542221251.

RIBEIRO, Djamila. Pequeno manual antirracista. Editora: Companhia das Letras. 136 p. 2019. ISBN -10: 8535932879

Cientistas Conectam Saberes

Por muito tempo, a ciência foi apresentada como uma área neutra, feita por pessoas “objetivas” que não eram influenciadas por suas experiências de vida. Mas a verdade é que todos nós temos uma história, uma identidade e vivências que moldam nossa forma de ver o mundo e com a ciência não é diferente.

É nesse cenário que o lugar de fala emerge como um conceito fundamental, reconhecendo que nossas posições sociais – incluindo gênero, raça e classe – moldam as perguntas que fazemos e os caminhos que seguimos na investigação científica. E o mais importante: isso não é um ponto fraco, mas uma força que pode tornar a ciência mais rica, diversa e inovadora.

Ilustração de cientistas conectando saberes

Novas perguntas, novas respostas

A disparidade de gênero na ciência limita a diversidade de ideias e pesquisas, introduz viés na pesquisa e corre o risco de negligenciar perspectivas importantes ao enfrentarmos desafios globais. A contribuição das mulheres na ciência não se limita a “temas femininos”. Em todas as áreas, da física à biologia, da engenharia à medicina, as pesquisadoras têm enriquecido o conhecimento com suas perspectivas únicas. Elas trazem formas diferentes de observar problemas, propor soluções e conectar saberes.

Mulheres na Ciência Brasileira: Saberes Plurais para um Futuro Inovador

No Brasil, a trajetória de mulheres na ciência demonstra com clareza como a diversidade impulsiona descobertas de alto impacto. Conheça duas vozes transformadoras:

  • Célia Xakriabá: Ciência Ancestral a Serviço do Planeta
    Célia Xakriabá, ativista e cientista indígena, atua no enfrentamento às mudanças climáticas, na luta pela demarcação de terras e na busca por igualdade na educação. Sua luta mostra que a demarcação de terras é também uma ação de preservação de um vasto conhecimento ancestral sobre a biodiversidade.
    “O saber tradicional, quando reconhecido, oferece respostas urgentes e inovadoras para crises globais”
  • Simone Maia Evaristo: Visibilidade para a Ciência que Salva Vidas
    Bióloga e citotecnologista, Simone Maia Evaristo fortalece a diversidade científica com uma perspectiva social e clínica relevante. Além disso, Simone contribuiu para a formalização e valorização da profissão: participou da elaboração da Série Citotecnologia, publicação que difunde casos e técnicas práticas da área. Sua trajetória também é marcada pela educação: ela leciona no curso técnico de citopatologia do INCA/FIOCRUZ, além de atuar em pós-graduação na área de citologia oncológica. Presidente da Associação Nacional de Citotecnologia (ANACITO), ela destaca:
    “A citotecnologia não é só leitura de lâmina, é um trabalho minucioso… Temos uma responsabilidade muito grande”

Conclusão: Pluralidade que Fortalece a Ciência Brasileira

Célia Xakriabá e Simone Maia Evaristo revelam como a diversidade de gênero, raça e origem social amplia não apenas a representatividade, mas também a qualidade e profundidade da produção científica. Ao reconhecer e valorizar as perspectivas únicas trazidas por mulheres, povos indígenas, pessoas negras e outros grupos historicamente sub-representados, fortalecemos a ciência com a pluralidade necessária para enfrentar os desafios complexos do nosso tempo.

É nessa multiplicidade de vozes, saberes e experiências que a pesquisa brasileira encontra caminhos mais justos, inovadores e transformadores.

Para saber mais sobre mulheres na ciência brasileira, acompanhe nosso projeto “Ciência, Coisa de Menina”!

#MulheresNaCiência #DiversidadeCientífica #CiênciaBrasileira #CéliaXakriabá #SimoneEvaristo @cienciacoisademenina no Instagram

Referências

Evaristo, S. M. (2019). Citotecnologista, este ilustre desconhecido. Revista Sustinere, 7(1), 217–219. https://doi.org/10.12957/sustinere.2019.43470

https://www.rets.epsjv.fiocruz.br/sites/default/files/images/simone_maia_evaristo_rede_cancer.pdf?utm

https://www.celiaxakriaba.com/

A Inegável Contribuição Negra na Ciência

Historicamente, a presença e as contribuições de mulheres negras no campo científico foram frequentemente sub-representadas ou apagadas. No entanto, o legado de mentes brilhantes que desafiaram o racismo e o machismo estruturais é inegável. Esta matéria busca resgatar e celebrar as histórias de cientistas que não apenas fizeram descobertas de ponta, mas que, ao ocuparem espaços antes inatingíveis, se tornaram faróis de inspiração para as futuras gerações. Elas são a prova de que a diversidade é fundamental para a inovação e o avanço do conhecimento.

Cientistas negras celebradas em ilustração

O Poder da Matemática: As Pioneiras da NASA

No auge da corrida espacial nos Estados Unidos, um grupo de matemáticas afro-americanas, conhecidas como “computadoras humanas,” desempenhou um papel crucial no sucesso dos primeiros programas espaciais, lutando contra a segregação racial e o preconceito de gênero.

  • Katherine Johnson (1918-2020): Sua precisão nos cálculos de balística era lendária. Katherine calculou a trajetória do primeiro voo tripulado americano ao espaço (Projeto Mercury) e, de forma crucial, verificou os cálculos eletrônicos para a missão do astronauta John Glenn. Seus cálculos foram vitais, garantindo a segurança e o sucesso do programa espacial.
  • Dorothy Vaughan (1910-2008): Matemática e líder perspicaz, Dorothy foi a primeira supervisora negra da NACA (precursora da NASA). Ela antecipou a chegada da computação eletrônica e garantiu que o grupo de mulheres negras se mantivesse indispensável ao ensinar programação em FORTRAN a si mesma e a suas colegas.

Medicina, Química e Inovação Histórica

O impacto dessas cientistas vai além do espaço, transformando a saúde e a tecnologia.

  • Alice Ball (1892-1916): Aos 23 anos, a química afro-americana desenvolveu o primeiro tratamento injetável eficaz para a hanseníase (antigamente conhecida como lepra), conhecido como o “Método Ball.” Ela inovou ao criar uma forma solúvel do óleo de chaulmoogra, tornando o tratamento menos doloroso e mais eficiente.
  • Patricia Bath (1942-2019): Oftalmologista e inventora, foi a primeira médica negra a obter uma patente para fins médicos nos EUA. Ela criou o Laserphaco Probe, um dispositivo pioneiro que utiliza tecnologia a laser para remover cataratas de forma minimamente invasiva, tornando a cirurgia mais segura e precisa.

O Legado das Cientistas Negras no Brasil

No Brasil, o pioneirismo dessas mulheres ilumina as áreas de exatas, biológicas e humanas, desafiando a estrutura de um país historicamente desigual.

  • Jaqueline Goes de Jesus (Biomédica/Virologista): Ganhou reconhecimento mundial ao liderar a equipe que sequenciou o genoma do SARS-CoV-2 no Brasil, em um tempo recorde de apenas 48 horas após a confirmação do primeiro caso no país. Seu trabalho demonstrou a excelência e a capacidade de resposta imediata da pesquisa nacional em momentos de crise sanitária global.
  • Enedina Alves Marques (1913-1981): Engenheira pioneira, Enedina foi a primeira engenheira negra do Brasil e a primeira mulher a se formar em Engenharia Civil no Paraná, em 1945. Ela contribuiu para grandes projetos de infraestrutura, como a Usina Capivari-Cachoeira. Sua conquista é um marco histórico na educação e na engenharia nacional.
  • Sônia Guimarães (Física): Doutora em Física, Sônia Guimarães foi a primeira mulher negra a lecionar no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), um dos centros de engenharia mais prestigiados do país. Sua atuação é vital para abrir caminhos e servir de referência para jovens em campos tradicionalmente restritos.

Conclusão

As trajetórias de luta e excelência dessas cientistas são a prova de que o talento não tem cor. No entanto, o reconhecimento de suas contribuições é um passo crucial para garantir que a ciência do futuro seja mais inclusiva e representativa. Ao celebrar essas histórias, estamos investindo no futuro, mostrando a jovens negras que seus sonhos e seu potencial têm lugar de destaque em todos os campos do conhecimento.

Referências

ESPACIO CIÊNCIA. Preta Cientista: Conheça Mulheres Negras Que Fizeram História na Ciência. Disponível em: https://www.espacociencia.pe.gov.br/preta-cientista-conheca-mulheres-negras-que-fizeram-historia-na-ciencia/. Acesso em: 01 nov. 2025.

GELEDÉS. 23 Cientistas Negras Que Mudaram o Mundo. Disponível em: https://www.geledes.org.br/23-cientistas-negras-que-mudaram-o-mundo/. Acesso em: 03 nov. 2025.

GALILEU. 5 Cientistas Negras Que Mudaram a História da Ciência. Revista Galileu. Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2020/03/5-cientistas-negras-que-mudaram-historia-da-ciencia.html. Acesso em: 31 out. 2025.

FIOCRUZ. Mulheres, Negras, Cientistas e Matemáticas. Cadernos de Estudos Sociais, v. 37, n. 1, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1590/0103-11042021E104. Acesso em: 02 nov. 2025.

FIOCRUZ. Livro de Passatempos: Cientistas Negras Brasileiras – v. 1. Disponível em: https://fiocruz.br/sites/fiocruz.br/files/documentos/livro_de_passatempos_cientistas_negras_brasileiras_-_v._1.pdf. Acesso em: 03 nov. 2025.