El Niño e aquecimento global: como isso afeta a América Latina?
Embora o El Niño e as mudanças climáticas dominem as notícias sobre o clima, você saberia dizer onde termina um fenômeno natural e onde começa a interferência humana? Entender essa diferença é o que torna possível identificar como as mudanças climáticas afetam diretamente o El Niño.
O El Niño corresponde à fase quente do fenômeno El Niño–Oscilação Sul (ENOS), um sistema climático natural resultante da interação entre o oceano e a atmosfera no Oceano Pacífico Equatorial. O componente atmosférico do ENOS é caracterizado pela Oscilação Sul, representada por uma relação inversa entre a pressão atmosférica ao nível do mar em Taiti (Polinésia Francesa) e Darwin (Austrália): quando a pressão aumenta em uma dessas regiões, tende a diminuir na outra. Alterações nesse padrão de circulação atmosférica influenciam a temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial. Quando ocorre uma anomalia negativa de pressão no Taiti, o enfraquecimento dos ventos alísios e o aquecimento anômalo das águas superficiais do Pacífico são favorecidos, caracterizando a fase quente do ENOS, denominada El Niño. Por outro lado, quando a anomalia negativa de pressão ocorre em Darwin, a circulação atmosférica e o resfriamento das águas superficiais do Pacífico Equatorial são intensificados configurando a fase fria do fenômeno, conhecida como La Niña.
Essa variação entre as pressões e temperaturas afeta diretamente a dinâmica na parte profunda do oceano, alterando o fenômeno da ressurgência. Em condições normais, os ventos alísios empurram as águas superficiais aquecidas em direção à Austrália, permitindo que as águas profundas, frias e extremamente ricas em nutrientes, subam à superfície na costa oeste da América do Sul. Porém, durante o El Niño esse processo é afetado, onde o enfraquecimento dos ventos faz com que uma camada de água quente e pobre em nutrientes chegue à costa latina. O que é capaz de afetar desde a produtividade marinha até o clima continental.
Na costa oeste da América do Sul, os efeitos da ressurgência manifestam-se de na economia do Peru e do Equador. Conforme aponta a NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica), o enfraquecimento dos ventos alísios impede que a corrente do fundo e fria suba, o que faz com que os cardumes se afastem e paralisa a pesca local, é nesse cenário vulnerável que as mudanças climáticas são destacadas.
A intensificação do aquecimento global tem potencial para ampliar os impactos associados ao El Niño. De acordo com a Organização Meteorológica Mundial, o aumento da temperatura média do planeta favorece a ocorrência de novos recordes de calor e pode potencializar os efeitos desse fenômeno climático, tornando seus impactos mais intensos em diferentes regiões do mundo. Um exemplo recente foi o El Niño Costeiro de 2023, que provocou alterações significativas no regime de precipitação da costa oeste da América do Sul. De acordo com Peng et al. (2024), o evento desencadeou chuvas extremas, inundações e deslizamentos de terra em áreas litorâneas que, normalmente, apresentam baixos índices pluviométricos. Além das regiões costeiras, os efeitos dessas alterações climáticas também se estenderam ao interior do continente, afetando sistemas agrícolas, recursos hídricos e atividades econômicas.
Embora frequentemente associados, o El Niño e as mudanças climáticas são fenômenos distintos. O El Niño corresponde a uma variabilidade climática natural do sistema oceano-atmosfera, enquanto as mudanças climáticas resultam, predominantemente, do aumento da concentração de gases de efeito estufa decorrente das atividades humanas. Entretanto, em um planeta mais aquecido, os impactos do El Niño tendem a ser mais severos, intensificando eventos extremos como secas, ondas de calor e chuvas intensas. Na América Latina, essa interação tem implicações diretas para a segurança alimentar, a disponibilidade de água, a geração de empregos e a qualidade de vida de milhões de pessoas, reforçando a necessidade de estratégias de mitigação e adaptação às mudanças climáticas.
Referências
AGU PUBLICATIONS. [Artigo científico]. Disponível em: https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/2014jc010299. Acesso em: 22 jun. 2026.
BBC NEWS BRASIL. O que é El Niño e como ele afeta o clima no mundo. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-55180955. Acesso em: 23 jun. 2026.
BERLATO, M. A.; CUNHA, G. R. da; FONTANA, D. C. El Niño Oscilação Sul: clima, vegetação e agricultura. Passo Fundo: Ed. dos Autores, 2024. Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura. Acesso em: 23 jun. 2026.
NOAA. Understanding El Niño. Disponível em: https://www.noaa.gov/understanding-el-nino. Acesso em: 22 jun. 2026.
PENG, et al. The 2023 extreme coastal El Niño: Atmospheric and air-sea coupling mechanisms. Science Advances. 2024. doi: 10.1126/sciadv.adk8646. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10959421/. Acesso em: 23 jun. 2026.